As eleições se
aproximam, e plagiando o grande Marx, um espectro ronda o Brasil: o espectro do
analfabetismo político. E não se trata aqui daquele analfabeto do discurso “terceiromundista”
ou classista direcionado às classes pobres ou desfavorecidas (para empregar um
termo politicamente correto). O analfabeto político está em todo lugar, nas
lojas de grande grife dos melhores shoppings centers, nas concessionárias de
carros importados, nos restaurantes mais chiques e caros, nos estádios de
futebol, nas filas de padarias e de caixas eletrônicos, nos bares, nos salões
de beleza, nos edifícios do asfalto e nas favelas, nas redes sociais, e até
mesmo nas escolas e nas universidades, o analfabeto político está por toda parte.
O analfabeto
político é aquele que não sabe votar. Isto mesmo, não sabe votar. Mas o que é
saber votar? Saber votar não é apertar os números do seu candidato em uma urna
eletrônica. Saber votar é ter critério para escolher o seu candidato. Saber
votar é conhecer o projeto de governo do seu candidato. Saber votar, enfim, é
estar filiado à ideologia partidária do seu candidato.
Para muitos votar
parece um mistério; para outros um grande sacrifício, e até mesmo um grande incômodo.
Entretanto, somos capazes de passar o ano inteiro, a vida inteira, reclamando
da alta dos preços, da falta de investimento em educação, do transito caótico,
do sistema de saúde ineficiente, da corrupção, dos abusos e escândalos na
política, mas não sabemos votar. Parece-me que há uma grande contradição nisto
tudo. Numa democracia quem está à frente da Administração Publica, o principal
funcionário da empresa chamada “Brasil”, é o político eleito. Votar, neste
sentido, seria a mesma coisa que contratar um funcionário para trabalhar numa
empresa privada: você deve antes conhecer o currículo do candidato à vaga,
conhecer a sua experiência profissional, as suas competências, e, sobretudo, a
sua probidade (se não tem nenhum histórico de indisciplina ou ilicitude). Numa
eleição política é a mesma coisa: deve-se conhecer o histórico do candidato (o
seu CV), sua experiência na política, suas qualidades de administrador, e,
sobretudo, se ele tem a “ficha limpa. Mas o grande diferencial numa eleição
política, que não existe (pelo menos em teoria) para o candidato a uma empresa
privada, é a filiação ideológica do candidato, ou seja, o seu partido político.
Aqui está a origem do analfabetismo político: o desconhecimento da ideologia
partidária e, por conseqüência, do programa de governo do candidato.
O analfabetismo
político tem, portanto, origem na ignorância do eleitor sobre os projetos de
governo do candidato. Na verdade, ele tem origem na falta de interesse em saber
e conhecer o projeto de um candidato. E isto tem uma explicação conjectural.
A primeira
explicação desse desinteresse reside no fato de que vivemos durante 20 anos
(uma geração inteira) o regime de ditadura militar onde a democracia não
existia. Se pensarmos que quem nasceu na década de 1950 somente votou pela
primeira vez aos 40 anos de idade, levaremos em conta essa explicação. Essa
geração da ditadura não teve oportunidade de ir às urnas para votar,
infelizmente não pôde experimentar a democracia, não sabe o que é viver num
regime democrático onde o voto é a principal arma do cidadão. Essa geração, por
conseqüência, ficou amordaçada, ficou emudecida, e não aprendeu a debater
política, a ver a política de forma salutar. É também essa mesma geração que
não transmitiu a geração posterior o prazer do debate, e o amor pela política.
Ao lado dessa
explicação existe outra, de ordem psicológica: o pessimismo. Esse sentimento
tem origem complexa e poderia dar uma tese de doutorado. O pessimismo do
brasileiro, a nossa síndrome de vira-lata segundo Nelson Rodrigues, pode também
explicar o nosso desinteresse por política. Muito comum ouvir aqui no Brasil
frases: “Todo mundo rouba”; “Todo político é ladrão”; “Esse pais não tem
jeito”; “É por isto que esse pais não vai pra frente”, etc. O pessimismo ronda
o ar brasileiro, e é justamente essa sensação que faz muitos cidadãos decidirem
votar nulo ou em branco.
Votar em branco
ou nulo é permanecer na posição cômoda de analfabeto político. Votar nulo ou em
branco é repetir o ciclo vicioso das causas históricas e psicológicas
mencionadas.
Mas como saber
votar? Convém reconhecer que o conhecimento da ideologia partidária é a
principal chave para se alfabetizar politicamente. Mas como fazemos para
identificá-la?
A primeira maneira
de identificá-la, a mais elementar, é se posicionar no antigo clichê esquerda e
direita. Isto já facilita, e muito, o caminho. Aqui no Brasil esse clichê se
constrói da seguinte forma: os partidos da direita têm uma tendência a
priorizar o aspecto econômico (empresas, mercado financeiro, privatizações,
etc.) nos seus programas de governo, e deixar o aspecto social (saúde,
educação, mobilidade urbana, etc) em segundo plano. Já os partidos da esquerda
o inverso: priorizam, na maioria das vezes, o plano social. Claro que isto é um
primeiro critério, um primeiro pente fino, para se passar ao segundo: posição
sobre temas polêmicos.
Como um
candidato pensa sobre determinado tema polêmico é um bom indicio sobre a sua posição
ideológica e de seu partido. Nesta eleição de 2014 os temas considerados
polêmicos são “casamento gay” e a “descriminalização da maconha”. Se você sabe
qual a posição do seu candidato, ou do partido o qual ele pertence, sobre esses
temas, você já pode saber se tens ou não afinidade com ele.
Isto é apenas uma segunda porta de entrada
para conhecer a ideologia partidária do candidato, e para alfabetizar
politicamente. Entretanto, a forma mais eficaz para saber em quem está votando
é ler o programa de governo do seu candidato. Eles estão on line no site do Tribunal
Eleitoral: http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2014/sistema-de-divulgacao-de-candidaturas
Boas eleições
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