sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ainda sobre o Decreto 8243/2014: o exemplo do caso dos enfermos por hanseníase vítimas de arbitrariedade do Estado


No último artigo escrevi uma moção em favor do Decreto 8243/2014 que visa uma politização do povo através de um estreito diálogo entre Administração Pública e a população. Para minha surpresa, e contra aqueles que esbofaram qualificativos imaginários de um suposto golpe ditatorial ou qualquer outra loucura da elite da “Casa Grande”, o Decreto 8243/14 não é uma concepção teórica vindo do partido do Governo, mas uma tentativa de regulamentar algo que já funciona na prática. E o caso dos enfermos por hanseníase contemplados pela Medida provisória n° 373 de 24 de maio de 2007 ilustra o que acabo de afirmar.

Alguém já ouviu falar no MORHAN? Creio que poucas pessoas. Quem assistiu a reportagem emitida ontem (24 de julho de 2014) pela TV Brasil no programa “Caminhos da reportagem” pôde ficar sabendo do que estou falando. O MORHAN significa Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (http://www.morhan.org.br/). Trata-se de uma associação criada com o intuito de defender e proteger os acometidos pela enfermidade chamada Hanseníase, vulgarmente conhecido como lepra, e que foram vítimas de arbitrariedades da parte do Estado, com a retirada de suas famílias e da sociedade, e a reclusão forçada em hospitais-colônias a partir da década de 1940 até 1980. A arbitrariedade com que o Estado tratou os enfermos os fez vítima de sua própria enfermidade, já que na época o tratamento e cura da hanseníase eram conhecidos e um fato notório, não havendo razão alguma para separa-los de seus familiares, e por conseqüência da sociedade mesmo, através do encarceramento. Esse tratamento discriminatório valeu uma medida provisória assinada pelo presidente Lula instituindo uma renda a título indenizatório a estes enfermos que foram vítimas do Estado.

Mas o que isto tem haver com o Decreto 8243?

Pois bem. Quem viu a reportagem deve ter percebido que foi criada uma comissão interministerial para receber os pedidos de indenização daqueles que foram vitimas da arbitrariedade estatal. A comissão ficou encarrega de receber os pedidos e analisa-los para ao final ser decidido sobre o direito à indenização. Segundo a reportagem mais de 10.000 pedidos já foram recebidos, e mais ou menos 8.000 indenizações já foram concedidas. Essa comissão interministerial pode ser considerada como similar aquela descrita no artigo 19 do Decreto 8243 que prevê criação de ''Mesa de Monitoramento das Demandas Sociais, instância colegiada interministerial responsável pela coordenação e encaminhamento de pautas dos movimentos sociais e pelo monitoramento de suas respostas''. Trata-se de uma comissão para receber os apelos daqueles que tem direito à indenização e também exercer um controle sobre aquelas demandas consideradas fora do direito atribuído pela medida provisória. 
 
Ficou também decidido a necessidade de haver um representante dos “movimentos sociais”, quer dizer um representante da MORHAN, para acompanhar os trabalhos da comissão e a evolução dos processos. Uma enfermo ex-portador da doença hanseníase, e também membro da associação, foi eleito para ir à Brasilia a cada mês tomar conhecimento dos trabalhos da comissão. É exatamente isto que o Decreto 8243 pretende regulamentar. É exatamente esse dialogo entre Administração Publica e sociedade civil, leia-se, cidadão, e representantes de associações, que o decreto pretende favorecer. Não vejo, portanto, alguma ilegalidade ou arbitrariedade, ou golpe de Estado (?!?!) ou seja lá o que a elite histérica queira qualificar ou nomear, mas sim uma tentativa de estreitar a participação civil nos atos da Administração Publica, e indo mais além, um projeto global de politizar o povo.

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