Ouvi recentemente uma comparação, durante o discurso de um senador
da República, que me fez refletir: a Mídia na atualidade exerce o
mesmo papel que a Igreja exerceu no Antigo Regime. Eu que vi, e vivi,
de perto as ideias ilustradas na França durante o século XVIII
tenho somente que concordar e aplaudir a feliz comparação. No
Antigo regime o conhecimento, a filosofia, era inteiramente
influenciada pelas ideias cristãs: Divina Providência, Salvação
das Almas no Juízo Final dos Pecados, Inferioridade da Mulher,
Imaculada Concepção, Eternidade do Casamento, etc. Essas concepções
(ou visões) influenciavam verdadeiramente a maneira das pessoas
comuns enxergarem o mundo. Precisou que eu publica-se um livro
chamado Dictionnaire de Philosophie, em 1764, para que essas
visões cristãs fossem duramente criticadas. Claro que eu não fui o
primeiro a fazê-las, mas minhas criticas ganharam o senso comum, a
opinião mais ordinária do povo, que na minha época era dominada
por uma classe, na época muito simpática e afeita às letras,
chamada de burguesia. A função que a Igreja exercia na mente das
pessoas no Antigo Regime (e parece que aqui no Brasil ainda exerce
numa grande parcela da população iletrada), era de uma verdadeira
catequese, esta aqui entendida como um conjunto de dogmas fantástico
que surge do nada, e que não tem um fundamento racional e realista.
De um argumento fantástico, era pregada a ideia de que a sociedade
era um dado natural, e que ela era dividida em “ordens”, gêneros,
espécies, de modo que cada um desses estratos exercia uma função
natural na sociedade, e que era determinada por Deus. Ninguém
explicava o que era Deus, e de onde vinha essa organização social
natural, em que nobres e clérigos pagavam menos impostos do que o
restante da população; que todos os direitos eram reservados para
uma minoria e retirados da maioria. Ninguém explicava o porquê do
poder dos reis, e todos deveriam aceitar que a sua legitimidade
estava em Deus, ou na ascendência hereditária de um passado
longínquo. Muitas questões ficavam no ar da incompreensão, no
universo da irracionalidade, e aqueles que ousassem fazer
interrogações, escrevendo livros, publicando panfletos, ou até
mesmo pregando novas ideias em lugares públicos, eram perseguidos e
condenados. A Igreja, o Vaticano, dominava as mentes e ditava a moral
e os bons costumes da sociedade, e todos aceitavam sem questionar.
Quando eu comecei a questionar muitas ideais propagadas no meu tempo
pela igreja, meus livros foram censurados, eu fui perseguido, e tive
que sair do meu pais de origem, a França, para morar na Holanda. A
igreja me perseguia e controlava os meus atos.
Hoje em dia, papel semelhante é exercido pela Mídia brasileira.
Ela tem o total controle da informação, da opinião publica, das
mentes. Ela manipula sem escrúpulos a informação, e busca
fundamento para fazer isto na retórica da liberdade de expressão.
Hoje são outros tempos, mas o exercício do poder continua muito
semelhante ao passado da Igreja. A Mídia no Brasil, como a Igreja no
meu tempo, cria dogmas através de ideias evasivas, sem fundamento
realista. O discurso construído pela Mídia é semelhante à
irracionalidade da religião : tem fundamento sobre premissas sem
coerência, e visa unicamente a manutenção do poder e a propagação
de seus dogmas privatistas. Qualquer pessoa que queira contestar o
que a Mídia propaga, é perseguido, vulgarizado, ridicularizado, e
todo um esforço é feito para cala-lo. A principal arma da Mídia,
como era a da Igreja no Antigo Regime, é a veiculação da
informação através de imagens e escritos confusos. O Brasil atual
tem um índice de analfabetismo crônico e de analfabetismo funcional
(aquele que não sabe interpretar texto e informação) semelhante a
França do meu tempo, no século XVIII. O ensinamento dos dogmas das
Igrejas no meu tempo era feito através dos vitrais, com imagens
sobre as passagens bíblicas, e a população analfabeta acompanhava
a história fantástica e misteriosa que era contada pelos padres
olhando os vitrais. Hoje a televisão faz o mesmo: ela funciona a
base de imagens, e de discurso vazio e confuso, fantástico, que não
estimula algum debate na sociedade. Há pouco debate na televisão,
(raríssimas são as emissoras promotoras de debates), assim como não
havia debate diante dos púlpitos nas Igrejas. A pregação do padre
diante dos seus fiéis, e do apresentador do telejornal diante dos
seus telespectadores têm efeitos semelhantes: transmitir uma
ideologia. Não há espaço para diálogo, para dialética, para
questionamentos ou críticas, as informações são transmitidas na
via da mão única, e entra no cérebro do ouvinte de maneira
pacífica e duradoura, sem que os receptores se dêem conta de que
elas irão influenciar sobremaneira suas opiniões. Precisou aparecer
uma tal de Internet, que criou uma tal de Redes Sociais, para que as
pessoas acordassem, e entendessem que o que passa na televisão, e o
que é escrito no jornal, não é sempre a realidade.
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