sexta-feira, 20 de março de 2015

A cultura do entreguismo e a direita no Brasil


O entreguismo é um conceito cunhado por especialistas para explicar uma ideologia política. A direita brasileira inspira-se nessa ideologia. Segundo o Wikipedia, entreguismo ou cosmopolitismo, é o “preceito, mentalidade ou prática político-ideológica de entregar recursos naturais de uma nação para exploração por entidades e empresas de outro país, de capital internacional”. Consiste portanto na desnacionalização sistemática da indústria interna, especialmente de setores considerados por determinados segmentos ideológicos e políticos como setores-chave na produção, como por exemplo a exploração do petróleo, mediante a transferência de seu controle para agentes estrangeiros. Em suma, trata-se de uma abertura, de uma entrega, ao mercado externo de bens nacionais. É interessante ver que o entreguismo nasceu no Brasil na década de 1950 no governo de Getúlio Vargas, quando o setor conservador da sociedade brasileira defendia a entrega da Petrobras, através abertura de suas ações, à investidores estrangeiros.

A cultura do entreguismo ainda paira sobre os escombros de um pais cuja herança é colonial. O entreguismo se revela assim como uma forma moderna de se colonizar o Brasil, na qual se entrega de maneira democrática e legal o controle dos recursos e da produção nacional. Cabe ressaltar que o entreguismo não é uma forma de governo, e sim uma ideologia, um modo de pensar, um valor. A abertura de empresas nacionais ao mercado privado, por exemplo a Vale do Rio Doce, ou o setor das Telecomunicações, bem como a abertura de ações da Petrobras à investidores estrangeiros, todas essas medidas podem ser justificadas como necessárias e adotadas seguindo a lógica neoliberal. Entretanto, o entreguismo não se trata apenas de uma privatização de âmbito nacional, de conceder permissão para empresas do setor privado explorarem o recurso natural ou determinado serviço, trata-se de uma abertura total do mercado interno ao mercado estrangeiro. É uma postura semelhante àquela do Pacto Colonial em que todos os recursos naturais extraídos no Brasil eram obrigatoriamente destinados ao mercado de Portugal, proibindo-se qualquer tipo de concorrência. Vê-se, portanto, que pela cultura do entreguismo reforça-se velhas ideias surgidas nos séculos XIX e XX, como Colonialismo, Terceiro-Mundo, e aquela da existência de Países Periféricos (em oposição aos Países Europeus do centro), já que o argumento daqueles que aspiram a cultura entreguista é a incapacidade do setor publico nacional em ser administrativamente auto-suficiente, o que forçaria a entrega do seu controle ao setor privado.

A cultura do entreguismo se adapta muito bem ao espectro da política neoliberal defendida pela extrema-direita. Para se entender a relação entre a direita e o entreguismo é preciso remontar alguns anos atrás. Tudo indica que ela nasceu no governo de Getúlio Vargas. Com a Revolução de 1930 comandada por Vargas, que foi um golpe militar de Estado (mas num contexto diferente daquele de 1889 feito por por Marechal Deodoro da Fonseca, e também daquele de 1964), toda a dinâmica da Republica Velha é abalada. O nacionalismo entra na ideologia do Governo, e o elemento nacional é exaltado de maneira autoritária. Durante o Estado Novo, e até as eleições de 1945, o governo busca através do autoritarismo um nacionalismo de caráter fascista. Com o restabelecimento da democracia em 1945, o partido União Democrática Nacional (UDN) é criado para fazer oposição às políticas e à figura de Getúlio Vargas. O conservadorismo brasileiro de viés entreguista nasce portanto da ideologia do partido UDN, ideologia que ficou conhecida como udenismo. O "udenismo" caracterizou-se pela defesa do liberalismo clássico e da moralidade, e pela forte oposição ao populismo. Suas bandeiras eram a abertura econômica para o capital estrangeiro e a valorização da educação pública. O entreguismo pode ser considerado como a versão perversa da política neoliberal.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A Mídia e a Igreja : dois poderes e a mesma medida


Ouvi recentemente uma comparação, durante o discurso de um senador da República, que me fez refletir: a Mídia na atualidade exerce o mesmo papel que a Igreja exerceu no Antigo Regime. Eu que vi, e vivi, de perto as ideias ilustradas na França durante o século XVIII tenho somente que concordar e aplaudir a feliz comparação. No Antigo regime o conhecimento, a filosofia, era inteiramente influenciada pelas ideias cristãs: Divina Providência, Salvação das Almas no Juízo Final dos Pecados, Inferioridade da Mulher, Imaculada Concepção, Eternidade do Casamento, etc. Essas concepções (ou visões) influenciavam verdadeiramente a maneira das pessoas comuns enxergarem o mundo. Precisou que eu publica-se um livro chamado Dictionnaire de Philosophie, em 1764, para que essas visões cristãs fossem duramente criticadas. Claro que eu não fui o primeiro a fazê-las, mas minhas criticas ganharam o senso comum, a opinião mais ordinária do povo, que na minha época era dominada por uma classe, na época muito simpática e afeita às letras, chamada de burguesia. A função que a Igreja exercia na mente das pessoas no Antigo Regime (e parece que aqui no Brasil ainda exerce numa grande parcela da população iletrada), era de uma verdadeira catequese, esta aqui entendida como um conjunto de dogmas fantástico que surge do nada, e que não tem um fundamento racional e realista.

De um argumento fantástico, era pregada a ideia de que a sociedade era um dado natural, e que ela era dividida em “ordens”, gêneros, espécies, de modo que cada um desses estratos exercia uma função natural na sociedade, e que era determinada por Deus. Ninguém explicava o que era Deus, e de onde vinha essa organização social natural, em que nobres e clérigos pagavam menos impostos do que o restante da população; que todos os direitos eram reservados para uma minoria e retirados da maioria. Ninguém explicava o porquê do poder dos reis, e todos deveriam aceitar que a sua legitimidade estava em Deus, ou na ascendência hereditária de um passado longínquo. Muitas questões ficavam no ar da incompreensão, no universo da irracionalidade, e aqueles que ousassem fazer interrogações, escrevendo livros, publicando panfletos, ou até mesmo pregando novas ideias em lugares públicos, eram perseguidos e condenados. A Igreja, o Vaticano, dominava as mentes e ditava a moral e os bons costumes da sociedade, e todos aceitavam sem questionar. Quando eu comecei a questionar muitas ideais propagadas no meu tempo pela igreja, meus livros foram censurados, eu fui perseguido, e tive que sair do meu pais de origem, a França, para morar na Holanda. A igreja me perseguia e controlava os meus atos.

Hoje em dia, papel semelhante é exercido pela Mídia brasileira. Ela tem o total controle da informação, da opinião publica, das mentes. Ela manipula sem escrúpulos a informação, e busca fundamento para fazer isto na retórica da liberdade de expressão. Hoje são outros tempos, mas o exercício do poder continua muito semelhante ao passado da Igreja. A Mídia no Brasil, como a Igreja no meu tempo, cria dogmas através de ideias evasivas, sem fundamento realista. O discurso construído pela Mídia é semelhante à irracionalidade da religião : tem fundamento sobre premissas sem coerência, e visa unicamente a manutenção do poder e a propagação de seus dogmas privatistas. Qualquer pessoa que queira contestar o que a Mídia propaga, é perseguido, vulgarizado, ridicularizado, e todo um esforço é feito para cala-lo. A principal arma da Mídia, como era a da Igreja no Antigo Regime, é a veiculação da informação através de imagens e escritos confusos. O Brasil atual tem um índice de analfabetismo crônico e de analfabetismo funcional (aquele que não sabe interpretar texto e informação) semelhante a França do meu tempo, no século XVIII. O ensinamento dos dogmas das Igrejas no meu tempo era feito através dos vitrais, com imagens sobre as passagens bíblicas, e a população analfabeta acompanhava a história fantástica e misteriosa que era contada pelos padres olhando os vitrais. Hoje a televisão faz o mesmo: ela funciona a base de imagens, e de discurso vazio e confuso, fantástico, que não estimula algum debate na sociedade. Há pouco debate na televisão, (raríssimas são as emissoras promotoras de debates), assim como não havia debate diante dos púlpitos nas Igrejas. A pregação do padre diante dos seus fiéis, e do apresentador do telejornal diante dos seus telespectadores têm efeitos semelhantes: transmitir uma ideologia. Não há espaço para diálogo, para dialética, para questionamentos ou críticas, as informações são transmitidas na via da mão única, e entra no cérebro do ouvinte de maneira pacífica e duradoura, sem que os receptores se dêem conta de que elas irão influenciar sobremaneira suas opiniões. Precisou aparecer uma tal de Internet, que criou uma tal de Redes Sociais, para que as pessoas acordassem, e entendessem que o que passa na televisão, e o que é escrito no jornal, não é sempre a realidade.